A chuva não é culpada. Ela apenas revela o que insistimos em esconder debaixo do asfalto: rios soterrados, nascentes esquecidas, obras sem rede pluvial, decisões sem escuta. Quando a cidade alaga, é a natureza pedindo para ser lembrada. O que aconteceu em Lafaiete no dia 30 de outubro não foi surpresa: foi consequência. Bastou uma tempestade para transformar ruas em rios e carros em pequenas ilhas à deriva. O centro e diversos bairros ficaram submersos, revelando o quanto Lafaiete ainda é incapaz de lidar com a própria chuva. E o que se repete, ano após ano, não pode mais ser tratado como algo imprevisível. A chuva não mudou. O que mudou foi o modo como a cidade lida com ela — ou, melhor, como deixa de lidar. As águas não invadiram a cidade: apenas voltaram pelo caminho que lhes roubaram. Por baixo do concreto ainda correm os traços dos antigos córregos, abafados por tubos, entulhos e pressa. Onde havia mata, há loteamentos.
Onde nascia água limpa, hoje desce enxurrada suja. Cada nascente drenada é uma memória apagada. Cada árvore tombada é uma defesa a menos contra o colapso que fingimos não ver. Nos últimos anos, o discurso do progresso tem servido para justificar o que, na prática, é destruição. Obras são apresentadas como solução, mas muitas delas nascem de projetos que ignoram a dinâmica da natureza. O preço de tratar o meio ambiente como obstáculo é alto — e quem paga é sempre a população. A cidade segue impermeabilizando o solo, canalizando rios, soterrando nascentes e, depois, se perguntando por que tudo alaga. Não existe tecnologia que compense a ausência de respeito. De nada adianta um plano de desassoreamento se, ao mesmo tempo, novas áreas verdes são sacrificadas. O combate às enchentes não está apenas em máquinas e galerias, mas em políticas que compreendam a relação entre o urbano e o natural. A cada chuva, a cidade expõe sua própria ferida.
A culpa não é do céu que desaba, mas do chão que não respira. E, enquanto o poder público seguir tratando a água como inimiga e o meio ambiente como detalhe, Lafaiete continuará pagando o preço de um modelo que insiste em apagar a paisagem que a sustenta. A natureza não se vinga. Ela apenas devolve — devolve a indiferença com alagamentos, a pressa com destruição, a ganância com prejuízos. E talvez o que chamamos de desastre seja apenas a forma mais dura de lembrança: a de que o verdadeiro progresso começa onde há respeito. Porque não há cidade possível sem o equilíbrio que a sustenta.
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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 13/11/2025