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Rogéria Ramos


Setembro Azul: o azul que insiste em ser visto



Setembro vai chegando ao fim. E com ele passam cores que tentam despertar a consciência coletiva. O amarelo grita pela vida diante do suicídio. O verde fala de doação de órgãos. O vermelho lembra a fragilidade do coração. Há também o azul, quase apagado, silencioso: o Setembro Azul, dedicado à comunidade surda. Um azul que resiste, que insiste em existir, mesmo quando poucos olham para ele.

O silêncio em torno desse azul é eloquente. Não é o silêncio da surdez, mas o da invisibilidade. Das portas que se fecham, dos serviços públicos sem intérprete, das escolas que ignoram a Libras, dos olhares que veem, mas não enxergam. É o silêncio que separa cidadãos de seus direitos e impede que a cidadania seja plena.

O azul carrega história e memória. Durante a Segunda Guerra, pessoas com deficiência eram marcadas com fita azul antes de serem levadas à morte. Hoje, esse azul é resistência, coragem e orgulho. É a lembrança de que dignidade não se pede: se garante.

No Brasil, mais de 10 milhões de pessoas convivem com algum grau de surdez. Em Lafaiete, não há dados oficiais, mas a realidade se vê todos os dias: consultas médicas sem intérprete, escolas que ainda não ensinam Libras, órgãos públicos inacessíveis. Invisibilidade também se traduz em barreiras concretas que limitam a participação plena na sociedade. 

A exclusão também se manifesta em eventos públicos. Shows, palestras, encontros e celebrações, mesmo quando organizados por órgãos oficiais, muitas vezes não garantem intérpretes de Libras ou recursos de acessibilidade, deixando uma parcela da população à margem da experiência. Esses episódios mostram que a invisibilidade não é simbólica apenas, mas cotidiana, reforçando a urgência de tornar cada espaço da cidade acessível a todos.

Inclusão não é favor, é cidadania. É o direito de aprender em Libras, de ser compreendido, de participar das decisões que moldam nossa cidade. Viver plenamente não é apenas respirar: é comunicar-se, expressar-se, ser ouvido e reconhecido.

O Setembro Amarelo nos lembra da urgência de proteger vidas. O Setembro Azul nos lembra que a vida plena exige comunicação. E comunicação é mais do que palavras: é presença, participação, ser visto e incluído.

Que este mês não seja apenas uma cor no calendário. Que seja um chamado à ação. Que escolas, órgãos públicos, empresas e cidadãos derrubem barreiras, construam pontes e garantam acesso real à comunicação e à participação. Que cada espaço da cidade seja acessível e cada voz surda, escutada.

O silêncio só exclui quando não é compartilhado. Transformado em diálogo, torna-se voz. E essa voz, feita de mãos, olhares e presença, é tão essencial quanto o ar que respiramos.

Que o azul ilumine, que o invisível deixe de ser silêncio, e que cada gesto em Libras seja reconhecido, respeitado e celebrado.

Setembro é Azul. E quando o azul fala, a cidadania se revela em sua plenitude: forte, clara e impossível de ignorar.



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 24/09/2025

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail [email protected] Instagram @rogeriaramosss


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