A fila do privilégio nunca espera. Em toda cidade, há filas que ninguém vê, mas que todo mundo sente. A fila da consulta que demora, da cirurgia que não chega, da terapia que falta. Filas silenciosas, que permanecem estacionadas, mesmo diante da dor e da urgência de quem espera.
Enquanto isso, existem outras que andam rápido. Projetos que avançam sem resistências, sem escuta ampla, sem o debate público que deveriam provocar. E, quando a população se dá conta, a lei já foi aprovada, publicada e com data marcada para entrar em vigor.
Foi assim que, em menos de 40 dias, a Câmara Municipal de Lafaiete aprovou o projeto que criou um “Auxílio-Saúde Suplementar” de R$ 700 por mês para vereadores e servidores — ativos e inativos. Um benefício sem exigência de comprovação de gastos, com reajuste automático anual e que, pelo que se tem notícia, tramitou com pouca ou nenhuma participação da sociedade. Talvez isso ajude a explicar a indignação de tantas pessoas ao descobrirem, tardiamente, que a lei já estava em vigor.
Não é o caso aqui de afirmar ilegalidades — essa análise cabe aos órgãos competentes. Mas é legítimo e necessário questionar quando um projeto que gera impacto direto nos cofres públicos e beneficia os próprios agentes públicos é aprovado com tamanha agilidade e tão pouco debate.
A Constituição Federal é clara ao estabelecer os princípios que regem a administração pública: moralidade, impessoalidade, finalidade pública. E toda decisão política deve ser analisada também à luz do que é ético, justo e comprometido com o interesse coletivo.
Porque política não se faz apenas com base na legalidade. Se faz, sobretudo, com legitimidade.
E, quando a população é colocada à margem, sem espaço para o contraditório, sem acesso fácil à informação, é inevitável perguntar: a quem serve essa decisão? A democracia exige vigilância constante e o silêncio da sociedade jamais pode ser interpretado como consentimento.
A verdadeira fila da democracia só anda quando o povo se coloca nela, com voz, com consciência e com coragem de perguntar: para quem, afinal, anda essa fila?
Por isso, é preciso participar, fiscalizar, questionar.
Porque, na política, quem não ocupa o seu lugar... acaba empurrado para o fim da fila.
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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 23/07/2025