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Opinião


Editorial: Eternos recomeços



Foto: Arquivo Jornal CORREIO


 

A sucessão de mudanças no primeiro escalão da Prefeitura de Lafaiete começa a produzir um ruído incômodo. Em pouco mais de um ano de gestão, o prefeito Leandro Chagas acumula duas trocas em 2025 e oito apenas até março de 2026. A saída do secretário de Governo, Rafael Lana, nome central na articulação política, é parte de um padrão que preocupa.
Trocar auxiliares é prerrogativa de qualquer gestor e nem de longe é uma exclusividade do governo atual. Às vezes, é necessário. Esse jogo administrativo inclui corrigir rumos, alinhar expectativas, ajustar o que a prática revela distante do plano. Mas a cadência dessas mudanças pode, sim, abalar o rumo. Quando frequentes e concentradas, elas deixam de ser instrumento de gestão para se tornar variável de risco, com impacto direto na continuidade de políticas e na capacidade de execução.
Mas seria uma análise simplista se desconsiderássemos um condicionante estrutural que atravessa esse cenário. Lafaiete não dispõe da mesma margem fiscal de municípios vizinhos, como Congonhas e Ouro Branco, o que se reflete na remuneração dos cargos de primeiro escalão. Na prática, assumir uma secretaria na maior cidade do Alto Paraopeba implica, para profissionais qualificados, interromper trajetórias consolidadas no setor privado para ingressar em uma função de alta exposição, elevada cobrança e retorno financeiro inferior. Exige disposição para lidar com problemas complexos e orçamentos apertados (ou, em alguns casos, praticamente inexistentes).
Esse descompasso entre exigência e recompensa produz efeitos previsíveis. A permanência passa a depender menos de incentivos materiais e mais de motivações intangíveis, como compromisso público ou afinidade com o projeto político. Ainda assim, sustentar equipes sob essas condições exige um grau de coesão e liderança que nem sempre se constrói no ritmo imposto pela realidade administrativa.
Por outro lado, a rotatividade também comunica. Ao promover substituições sucessivas, o prefeito sinaliza disposição para recalibrar a gestão e preservar o comando sobre seu núcleo estratégico. Há, nesse movimento, uma tentativa de evitar a inércia e de manter a condução política sob controle. Mas essa estratégia cobra como preço a perda de memória institucional construída a duras penas e a interrupção de políticas de médio prazo – apenas para citar alguns efeitos.
O ponto de inflexão está posto. O desafio, daqui em diante, é atrair talentos capazes de segurar esse rojão e construir condições para que permaneçam. Isso implica lidar com o hiato entre exigência e recompensa. Não há solução simples para uma restrição fiscal real. Há, porém, escolhas. A questão que se impõe não é quantas trocas ainda virão, mas se elas continuarão sendo a regra. Porque, quando a exceção vira método, a gestão passa a reagir mais, sobrando pouco espaço para planejar e conduzir. E sabemos que a cidade precisa de direção e não pode viver de eternos recomeços.




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Postado por Rafaela Melo, no dia 11/04/2026 - 19:20


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