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Longe de ser apenas uma fase, a seletividade alimentar em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode gerar impactos significativos à saúde, incluindo deficiências nutricionais e prejuízos ao desenvolvimento. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico do transtorno, o equivalente a aproximadamente 1,2% da população.
O cenário evidencia um desafio ainda pouco compreendido por muitas famílias: a dificuldade alimentar e seus reflexos no bem-estar infantil. Para muitos responsáveis, o momento das refeições pode se tornar um período de tensão, já que a recusa a determinados alimentos vai além de uma simples preferência. Segundo a neurologista Nely Sartori, do Hospital Regional de Assis, unidade da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP), gerenciada pelo Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (CEJAM), a seletividade alimentar está relacionada ao processamento sensorial.
“No TEA, estímulos como textura, cheiro e temperatura costumam ser aversivos ou até dolorosos”, explica a especialista. Essa sensibilidade ajuda a entender por que muitos pacientes aceitam apenas um grupo restrito de alimentos. A rigidez cognitiva, característica frequente do autismo, também reforça a necessidade de previsibilidade, tornando mudanças alimentares ainda mais desafiadoras.
A médica destaca ainda que a ideia de que “quem sente fome, come” não se aplica nesses casos. Muitas crianças, segundo ela, preferem ficar em jejum a ingerir alimentos que provoquem desconforto sensorial.
Riscos nutricionais e impactos na saúde
Quando há exclusão de grupos alimentares inteiros, baixo ganho de peso, perda ponderal, alterações intestinais ou conflitos intensos durante as refeições, a avaliação clínica é recomendada. Deficiências de nutrientes como ferro, vitamina D, cálcio e vitaminas do complexo B são comuns e podem comprometer imunidade, cognição e comportamento.
Desconfortos gastrointestinais também podem causar irritabilidade e desregulação emocional, criando um ciclo difícil de romper. Por isso, a abordagem deve ser ampla e multidisciplinar, envolvendo nutricionista, terapeuta ocupacional e psicólogo.
Estratégias no dia a dia
A nutricionista Ana Carolina de Morais, da UBS Jardim Aracati, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP), também gerenciada pelo CEJAM, destaca que pequenas estratégias podem ajudar na ampliação do repertório alimentar. “É importante oferecer o alimento várias vezes, em diferentes formas, sem forçar. O simples contato visual já representa um avanço”, afirma. Outra recomendação é associar alimentos já aceitos a pequenas porções de novos itens, respeitando sempre as preferências individuais da criança. Em alguns casos, a suplementação nutricional pode ser indicada de forma individualizada.
Atenção também no ambiente escolar
O ambiente escolar também exige atenção. Em São Paulo, há respaldo legal para que crianças com TEA levem seus próprios alimentos, desde que haja indicação médica, evitando longos períodos sem alimentação e possíveis complicações.
No contexto do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, especialistas reforçam que tratar a seletividade alimentar como simples resistência pode atrasar o diagnóstico e a intervenção adequada. Reconhecer o problema é fundamental para garantir uma alimentação equilibrada e mais qualidade de vida para crianças com TEA e suas famílias.
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Postado por Rafaela Melo, no dia 02/04/2026 - 13:05