Foto: P. de Souza
Orquídea Del Carmem Perez Flores é uma das refugiadas que tenta recomeçar a vida em Lafaiete
A migração venezuelana, fenômeno que redesenhou o mapa humano do Brasil na última década, também se manifesta em cidades médias do interior de Minas Gerais. Em Lafaiete, Congonhas e Ouro Branco, a presença desses imigrantes se solidifica de forma discreta, impulsionada pelo trabalho e pela busca por estabilidade, ainda que marcada pela percepção de provisoriedade.
Não há um levantamento oficial sobre o total de venezuelanos na região. Dados do CadÚnico, porém, indicam ao menos 70 residentes em Lafaiete, 27 em Congonhas e 11 em Ouro Branco. Vale lembrar, também, que eles não representam a totalidade dos imigrantes dessa nacionalidade, uma vez que o registro no CadÚnico exige renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa, renda familiar total de até três salários mínimos ou ausência de renda fixa. São números modestos em termos absolutos, mas representativos de um fluxo migratório que se repete em diferentes partes do país.
Os venezuelanos ouvidos pelo Jornal CORREIO relatam que deixaram o país em meio ao colapso econômico, à escassez de políticas sociais e à insegurança institucional. No Brasil, afirmam ter encontrado acesso à documentação, programas de assistência e oportunidades de trabalho inexistentes na Venezuela. Ainda assim, todos se definem como refugiados temporários e dizem manter o objetivo de retornar assim que o cenário político permitir.
No Brasil, o Censo de 2022 do IBGE registrou 271.514 venezuelanos residentes
Saudade de casa
A rotina de Orquídea Del Carmem Perez Flores, 18 anos, ilustra esse percurso. Repositora do supermercado Brasil, em Lafaiete, ela está no país há pouco mais de um ano. Entrou no Brasil por Roraima, após deixar o estado do Amazonas, na Venezuela. Parte da família vive em Lafaiete, enquanto um irmão está no Chile e o pai permaneceu no país de origem.
Segundo Orquídea, a migração foi uma estratégia de sobrevivência e de construção de futuro. Ela relata ter sido acolhida no Brasil, apesar de episódios de xenofobia, e diz ser grata pelas condições encontradas. Seu projeto, no entanto, permanece ligado ao retorno. “Quero melhorar de vida e voltar para a Venezuela”, afirmou.
A prisão do presidente Nicolás Maduro, em janeiro, é vista de forma ambivalente pelos venezuelanos entrevistados. Para Orquídea, a retirada do líder do poder teve um efeito positivo, mas não alterou a realidade do país. “A repressão continua e a economia segue caótica”, disse. Outros entrevistados divergem quanto à legitimidade da ação, criticando a intervenção dos Estados Unidos. Em comum, todos destacam que o Brasil ofereceu acolhimento institucional e social, o que consideram decisivo para a adaptação.
Segundo Orquídea, sete venezuelanos trabalham nas nove lojas do supermercado Brasil em Lafaiete, o que aponta para uma inserção gradual desse grupo no mercado formal local, especialmente em funções operacionais. O movimento observado no Alto Paraopeba reflete uma tendência nacional. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), cerca de 7,9 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos, das quais mais de 6,9 milhões permanecem na América Latina e no Caribe. No Brasil, o Censo de 2022 do IBGE registrou 271.514 venezuelanos residentes, tornando-os a principal nacionalidade estrangeira no país.
Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) mostram que os venezuelanos representam a maioria absoluta entre os refugiados reconhecidos no Brasil. Entre 2020 e 2025, o grupo respondeu por índices que variam de 77% a 97% dos reconhecimentos anuais, consolidando sua predominância nas estatísticas migratórias nacionais.
A intensificação recente da crise política e militar na Venezuela levou o governo brasileiro a reforçar o monitoramento da fronteira norte. Em Pacaraima (RR), principal porta de entrada, o Exército ampliou a fiscalização diante da possibilidade de novo aumento no fluxo migratório após a prisão de Maduro.
Quem pode ser considerado refugiado?
Para obter o status de refugiado no Brasil, é necessário comprovar temor de perseguição ou a existência de grave e generalizada violação de direitos humanos, conforme a Lei 9.474/1997. A análise cabe ao Conare, vinculado ao Ministério da Justiça, e apenas os pedidos deferidos integram as estatísticas oficiais.
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Postado por Maria Teresa, no dia 01/02/2026 - 16:00