Foto: Reprodução Freepik
Na primeira infância, a fantasia é a principal forma pela qual a criança se relaciona com o mundo. Nesse contexto, a crença em Papai Noel não se limita a uma tradição natalina, mas representa uma expressão do funcionamento psíquico próprio dessa fase do desenvolvimento infantil.
Segundo a psicóloga Renata Fernanda Dias, crianças tendem a acreditar em Papai Noel entre aproximadamente 2 e 6 anos de idade. Esse período corresponde a uma etapa em que o pensamento mágico está ativo e é esperado. Ao longo desse processo, a criança constrói gradualmente a distinção entre realidade e imaginação, utilizando a fantasia como um recurso fundamental para compreender o mundo, elaborar desejos e lidar com frustrações.
"O pensamento mágico não deve ser entendido como um erro a ser corrigido, mas como uma etapa necessária da constituição psíquica. Nesse cenário, Papai Noel surge como uma figura que representa cuidado, proteção e reconhecimento. Ele simboliza um Outro que vê, escuta e responde, oferecendo presentes como forma de amor e validação do desejo infantil", explica a especialista.
Essa crença também se articula com as primeiras relações da criança com as figuras parentais. Ao acreditar em Papai Noel, a criança sustenta uma confiança básica no adulto e no mundo ao seu redor. Os rituais natalinos — como escrever cartas, esperar a noite especial e imaginar a chegada do Noel — organizam o tempo psíquico, ensinando a lidar com a espera, o limite e a frustração, aspectos fundamentais para o desenvolvimento emocional.
"Diante disso, é comum o questionamento sobre a interferência dos adultos nessa fantasia e se é apropriado afirmar que Papai Noel não existe. A resposta é negativa. Não é necessário antecipar essa revelação. A fantasia cumpre uma função estruturante e, quando é rompida de forma precoce, pode gerar angústia, desconfiança ou confusão", comenta a psicóloga.
O abandono da crença costuma ocorrer de maneira espontânea, geralmente a partir dos 7 anos, quando a criança amplia sua capacidade simbólica e lógica. Nesse momento, começam a surgir perguntas, dúvidas e a elaboração de conclusões próprias. Cabe ao adulto acompanhar esse processo com sensibilidade, acolhendo os questionamentos sem desqualificar a experiência vivida.
Papai Noel também pode ser compreendido como um significante que introduz a criança no campo do simbólico e da cultura, sinalizando que nem tudo é imediato ou visível e que o desejo está ligado à falta. Quando a criança deixa de acreditar, não perde a magia, mas pode passar a ocupar um novo lugar: o de quem ajuda a sustentar o encantamento para os menores.
"Preservar a crença em Papai Noel enquanto ela faz sentido para a criança pequena é respeitar o tempo da infância. Em um mundo marcado pela pressa e pelo excesso de explicações, permitir a fantasia não é enganar, mas cuidar. É reconhecer que crescer também implica atravessar, no próprio tempo, as ilusões necessárias que sustentam o desejo e a esperança", conclui Renata.
Renata Fernanda DiasPsicóloga – CRP 04/13463
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Postado por Rafaela Melo, no dia 24/12/2025 - 08:50