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Bombeiro de Lafaiete é atropelado enquanto salvava uma vida em BH

Durante o atendimento, o militar chegou a enviar um áudio de despedida para a esposa e uma mensagem a um padre amigo



Foto: Divulgação


O sargento do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte é natural de Lafaiete

Permanece afastado do trabalho o sargento do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte, Luiz Maycon Egg, 36 anos, ferido gravemente enquanto atendia uma ocorrência na Avenida Tereza Cristina, na capital mineira. O acidente aconteceu na tarde de 7 de novembro, na altura do número 8.000, no bairro das Indústrias, durante o socorro a um motociclista envolvido em uma colisão com um Renault Kwid.
O primeiro acidente deixou o condutor da Honda CB300 com escoriações e dores nas costas, sem suspeita inicial de fraturas, segundo a Polícia Militar. A via estava parcialmente isolada quando o sargento, responsável por estabilizar a vítima no chão, foi atingido por um terceiro veículo que rompeu o perímetro de segurança. “Foi tudo muito rápido. Só deu tempo de escutar uma batida forte e o barulho do pneu. Quando percebi que algo se aproximava, me debrucei sobre a vítima”, relatou. “Foi onde eu senti a pancada.”
O impacto provocou uma laceração nas nádegas e no quadril do militar. Imobilizado no solo, ele percebeu a gravidade do ferimento. “Minhas pernas não se movimentavam. Coloquei a mão e vi a hemorragia intensa. Eu sentia que ia morrer. Falava o tempo todo: ‘Eu vou morrer’.” Colegas da corporação iniciaram os primeiros socorros até a chegada das equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que assumiram o atendimento das duas vítimas.
Viaturas adicionais dos Bombeiros foram mobilizadas. O sargento chegou a perder a consciência antes de ser removido. “Enviei um áudio de despedida para minha esposa. Mandei mensagem para um padre amigo. Depois disso, fui apagando”, lembrou. “A última coisa que me recordo é a chegada do Samu. Acordei já no João XXIII.”
O transporte até o Hospital João XXIII contou com escolta da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, devido à gravidade do caso e para garantir a fluidez do trajeto. Após os primeiros procedimentos, ele iniciou um processo de recuperação que exige fisioterapia contínua. A corporação não estimou prazo para seu retorno às atividades, já que a lesão compromete a mobilidade e a força da perna esquerda.
Com 16 anos de serviço, Luiz Maycon começou a carreira em 2009 no 2º Batalhão, no bairro Eldorado, em Belo Horizonte. Em 2014, foi transferido para a 2ª Companhia de Conselheiro Lafaiete, onde atuou por mais de uma década até retornar à capital. Hoje lotado novamente em BH, afirma ter vivido “o episódio mais traumático” da carreira. “Quando paro para pensar, tudo volta. Mas minha família tem me dado muita força: meus irmãos, minha mãe, meu pai, minha esposa e meus filhos. Nunca imaginei que tinha tantos amigos. As mensagens, as orações... isso tem sido essencial.”
A motorista do veículo que o atingiu foi identificada e prestou depoimento. A investigação segue em andamento, e os laudos periciais vão determinar a dinâmica exata do atropelamento e eventuais responsabilidades. Em processo de reabilitação, o sargento diz que o episódio mudou sua percepção sobre a vida. “Não mudou nada em relação ao trabalho. Sabemos dos riscos desde que entramos. Mas mudou a forma como eu enxergo a vida. Sinto como se fosse uma segunda chance.”

Rotina da família
Desde o atropelamento, a rotina dos familiares tem sido marcada por tensão e esperança. O irmão do militar, o sargento Márcio Egg, relatou a difícil jornada após o acidente e destacou a postura de proteção adotada por Luiz Maycon no momento do impacto. “São dias de apreensão, esperança e muita fé. A cada evolução dele, sentimos um alívio imenso; a cada intercorrência, o coração aperta de novo. Ainda assim, seguimos firmes, porque ele tem demonstrado uma força que inspira todos nós”, afirmou.
Márcio contou que, ao conversarem sobre o ocorrido, o irmão descreveu a cena com naturalidade, como se fosse um atendimento comum. “Ele me contou tudo com uma humildade que é muito própria dele. Falou como se estivesse descrevendo um atendimento normal, sem perceber a dimensão do que tinha feito.”
Segundo o relato, Luiz Maycon chegou ao local da colisão entre o motociclista e um carro e encontrou a vítima caída ao solo. “No decorrer do atendimento, assumiu o controle da coluna cervical, posicionando-se de maneira a proteger o motociclista de qualquer risco adicional — uma postura técnica, mas que exige coragem, porque ele se coloca entre o perigo e a vítima.”

Para Márcio, o gesto do irmão evitou um desfecho possivelmente fatal. “Do jeito que ele me contou, parecia apenas algo que ‘aconteceu’. Mas, analisando a cena com calma, percebemos o que realmente ocorreu: se ele não estivesse naquela posição, a vítima teria recebido o impacto diretamente na região do crânio — e, diante da força do segundo acidente, as consequências poderiam ter sido muito mais graves, possivelmente fatais.”
Ele reforça que o segundo acidente aconteceria de qualquer forma. “Independente de eles estarem ou não no local naquele momento, o segundo acidente iria acontecer do mesmo jeito — como se vê claramente no vídeo. A dinâmica do trânsito já conduzia àquela colisão. A diferença é que, se Luiz Maycon não estivesse ali, não haveria absolutamente nada entre o veículo e o motociclista ferido no chão. A presença dele se tornou, literalmente, a barreira que evitou um desfecho trágico.”
Márcio resume: “Pela postura natural de proteção que adotou, ele se tornou o escudo daquela vítima, assumindo para si o risco que atingiria outra pessoa.”
A família enfrenta uma rotina marcada por tratamentos, oscilações clínicas e momentos de incerteza. “Desde então, tem sido uma jornada de cirurgias, infecções difíceis, febre persistente, fisioterapia limitante, evolução neurológica instável, tratamentos intensivos e muita resiliência. Ele luta todos os dias. E nós lutamos ao lado dele.”

O apoio recebido tem sido essencial. “Mas, em meio a tudo isso, temos recebido um apoio gigantesco — de colegas de farda, de autoridades, de amigos e até de pessoas que nunca conhecemos. O Corpo de Bombeiros tem sido impecável na presença, no suporte e no cuidado. E isso tem sustentado nossa família.”
Para Márcio, o gesto do irmão reflete sua essência. “Meu irmão não se enaltece, não se coloca como herói. Mas para nós, e para quem entende a dinâmica daquele atendimento, fica claro: ele salvou uma vida arriscando a própria. E isso diz tudo sobre quem ele é — como profissional e como ser humano.”

 

 




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Postado por Rafaela Melo, no dia 28/11/2025 - 20:20


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