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Rogéria Ramos


Quando a indignação encontra as próprias escolhas



Na edição de 2 de outubro, escrevi sobre a importância de avaliar nossos representantes pela trajetória, pelos resultados e pela coerência entre palavras e atitudes. Poucos dias depois das eleições, a sessão do dia 8 de outubro, na Câmara Municipal de Lafaiete, trouxe novos motivos para essa reflexão. No plenário da Câmara, ouvimos manifestações indignadas sobre dificuldades na saúde, problemas no transporte público e recursos que precisam chegar ao município. Houve também cobranças aos deputados eleitos e questionamentos sobre as escolhas dos eleitores. Algumas dessas preocupações são legítimas. Mas a capacidade de representar Lafaiete não se mede pelo lugar de origem de um deputado.

 O que importa é sua trajetória, sua capacidade de articulação, a eficiência de seu trabalho e, sobretudo, os resultados que entrega à população. Enquanto acompanhava aquelas falas, outra pergunta me pareceu inevitável: será que o mesmo rigor utilizado para cobrar responsabilidades dos outros também é aplicado às próprias decisões? Em 2025, os treze vereadores foram autores de três propostas que merecem atenção. Duas delas estenderam o auxílio-alimentação aos próprios parlamentares e instituíram o auxílio-saúde suplementar, também destinado a eles. A terceira criou treze novas vagas de assessores, ampliando a estrutura de cargos comissionados da Câmara Municipal. Em 2026, os valores previstos para os auxílios foram reajustados: R$ 52,13 por dia de auxílio-alimentação, equivalente a R$ 1.146,86 em 22 dias, e R$ 729,82 mensais de auxílio-saúde.

Somados, representam R$ 1.876,68 em benefícios de referência, além do subsídio parlamentar de R$ 12.237,33 mensais. São decisões documentadas, que merecem ser conhecidas e avaliadas pela população. Enquanto isso, há quem saia de casa antes de amanhecer, enfrente uma longa jornada de trabalho e retorne quando já escureceu, muitas vezes precisando sustentar uma família com um salário mínimo. Para essas pessoas, cada real representa uma escolha. Os servidores têm direitos, e o Legislativo precisa de estrutura para funcionar. Mas, quando os próprios parlamentares também são beneficiados pelas medidas que aprovam, é legítimo perguntar quais critérios orientam essas decisões e como se justificam diante das necessidades da cidade. E talvez seja justamente por isso que a indignação, sozinha, já não seja suficiente.

 Não basta demonstrar preocupação quando o microfone está ligado. É preciso que essa preocupação também oriente as escolhas feitas quando chega a hora de decidir sobre recursos públicos. A responsabilidade não pertence apenas ao prefeito ou aos deputados. Ela também está nas mãos daqueles que já ocupam uma cadeira no Legislativo municipal. A população merece mais do que discursos. Porque o compromisso com o povo não se revela apenas naquilo que se cobra dos outros. Revela-se, sobretudo, naquilo que cada um escolhe para si.



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 23/10/2026

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail [email protected] Instagram @rogeriaramosss



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