Educação


Militarização e obsessão religiosa da política



“O presidente Jair Bolsonaro (PSL) voltou a criticar, no domingo, dia 28, a suposta doutrinação que vem sendo praticada por alguns professores no Brasil e defendeu que, se houver partido nas escolas, ‘que seja dos dois lados’. As declarações foram feitas pelo presidente ao chegar à casa de seu filho mais velho, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), em Brasília, por volta de meio-dia.”
Mas quem disse que existem apenas dois grupos ideológicos dentro das escolas? Já repararam como o dualismo platônico reduz as relações sociais a homens do bem e homens do mal, ignorando os conflitos de um cenário que é muito mais que isso? Bom e mau, feio e bonito... Essa é a concepção própria de uma sociedade que não evoluiu o olhar dialético e crítico da realidade. Coisa própria de pensamento dualista platônico.
"Nós queremos escola sem partido, mas, se tiver partido, que seja dos dois lados", afirmou. "Não pode ter um lado só na sala de aula. Isso leva ao que nós não queremos. Mais cedo, o presidente havia publicado, em sua conta em uma rede social, um vídeo, gravado por uma estudante, em que uma professora chamava o polemista Olavo de Carvalho de "anta" e de "bosta".” Essa docente se desqualificou, descendo ao mesmo nível desse senhor, filósofo da conservação. Para formadora de opinião faltou nela termos mais adequados para a argumentação que ajudasse o aluno, de forma dialética a avaliar as ideias desse senhor, para mim, ultrapassadas e descabidas para o mundo atual.
Na postagem, a aluna acusa a docente de ter dedicado 25 minutos à "opinião política partidária" e de ter criticado a proposta de escola sem partido. "Eu não estou pagando cursinho para ouvir sua opinião político-partidária", disse a estudante no vídeo, que não tem data e local identificados. "Eu estou pagando cursinho para ter aula de gramática." Eu acho que a aluna deveria cobrar uma gramática menos normativa e mais dialética, pois o cemitério está cheio de gente que falou e escreveu bonito, mas não deu nenhuma contribuição para a história, ainda que fossem ideias conservadoras.
“A aluna afirmou ainda que vai gravar e expor todas as aulas da professora na internet. Em novembro do ano passado, recém-eleito presidente, Bolsonaro incentivou estudantes a gravarem as classes para combater a "doutrinação ideológica" nas instituições de ensino”. Essa orientação oficial do governo, na pessoa do senhor presidente, também é uma “doutrinação ideológica”. Só muda o polo.
Cursei Filosofia já no final da Ditadura Militar no Brasil e tinha forte impressão de que alguns professores eram monitorados e vigiados. Depois que passei a lecionar tive a mesma desconfiança em relação às minhas aulas de Filosofia e Sociologia. Verdade que já tinha sido proclamada a distensão e abertura política no governo Figueiredo e já existia o movimento das Diretas Já. Mas a transição com Tancredo Neves ainda deixava no ar a sensação de que os militares estavam atuando nos bastidores ainda influenciados pela pior política que o país vivera nos anos de ferro. Hoje vivemos uma democracia militarizada, o que é altamente contraditório ao espírito da democracia liberal. A mi­lita­rização e a obsessão religiosa da prática política oficializada, como Damares o quer, é algo que assombra.
A militarização e a imposição de princípios de um governo em um Estado proclamado laico é uma contradição brutal. Um discurso oficial que aponta professores como doutrinadores e que defende que, se a escola tiver partido que seja “dos dois lados” é o primeiro a não praticar o que defende. Você consegue entender isso? Chupa essa manga!
Fonte – Site Jornal do Brasil. https://www.jb.com.br/pais/2019/04/997229-se-escola-tiver-partido--que-seja-dos-dois-lados--defende-bolsonaro.html. Acesso 28/04/2019.

José Antônio dos Santos
Mestre pela UFSJ e membro da ACLCL.
Contato – joseantonio281@hotmail.com



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Escrito por Educação, no dia 17/05/2019


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