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Adultos que não ouvem as crianças



O mês de agosto está acabando. Segue a pergunta: Você está sabendo dos sofrimentos e dos sucessos de seus filhos na escola e nas outras vivências deles? As crianças falam que estão sofrendo na escola e os adultos, ignoram. Elas dizem do seu jeito que foram molestadas ou que sofreram abuso ou assédio sexual e os grandes falam que estão mentindo, fantasiando ou que, no fundo, estão mesmo é ?dando mole?, desejando viver essas situações. Absurdo!

Muitos adultos persistem em cometer os mesmos erros há décadas. Estão cegos ao que as crianças estão vivendo e sentindo. Veem as crianças nas redes de relacionamentos e permanecem indiferentes ao que possa já estar acontecendo com elas. E quando as crianças mandam recados indiretos ou diretos a eles, continuam sem perceber. As igrejas, as escolas e as instituições que formam crianças, como creches e cursinhos, precisam estar atentos a isso. E precisam dar uma balançada nos adultos, para ver se acordam para a realidade. As crianças estão sendo ameaçadas e muitas pessoas não fazem nada para protegê-las. 

Os adultos precisam reservar tempo, para prestar atenção especial às crianças. Agachar-se, olhar nos olhos delas e ouvi-las mirando a alma e buscando captar sentimentos e angústias, anseios e necessidades próprias da idade. Falta sabedoria dos adultos em saber fazer isso bem. Tendemos a subestimar os sentimentos e capacidade das crianças. Poucos têm uma atitude de reverência e respeito às opiniões delas. Essa atitude forma crianças agressivas e incapazes de ouvir seus pares e os próprios adultos.  

Adulto que ouve ensina a habilidade de ouvir. Adultos que valorizam opiniões das crianças formam pessoas bem resolvidas, com autonomia emocional, intelectual e física. Crianças que recebem atenção e cuidado, carinho e incentivos adoecem menos e se tornam adultos confiantes, que se sentem capazes para enfrentar os desafios e revezes da vida. 

Adultos capazes de perceber as dificuldades e anseios das crianças se tornam uma alegria na família e nos grupos sociais. Muitos demonstram que não é preciso ter preparação acadêmica para desenvolver sensibilidades. Conheço muitas pessoas graduadas incapazes de ajudar as crianças a administrarem suas dificuldades e seus anseios. Outras tantas não desenvolveram as habilidades necessárias para resolverem situações difíceis e obterem sucesso e não sabem ensiná-las aos pequenos e aos adolescentes. Esses adultos estão despreparados para encarar seus próprios problemas. 

Para identificar as dificuldades e os anseios das crianças não precisamos e nem podemos agir e falar como crianças. Não somos iguais a elas e nem conseguiremos ser. Precisamos ajudá-las. Elas têm de reconhecer em nós os adultos em quem poderão confiar e esperar orientações. E precisam sentir que os adultos as levam a sério.

Por isso, temos de voltar nossa atenção completamente para elas, quando nos pedem algo. Ajoelhar ou agachar perto delas, olhar nos olhos e se dedicar a observar os gestos delas e a analisar o que dizem, são formas concretas que nos ajudam a identificar se estão ou não sendo ameaçadas por alguma pessoa ou situação e passando, ou não, por momentos difíceis.

Os adultos precisam entender que as crianças são sujeitos de direitos e de deveres. E que precisam ser tratadas de forma ética e respeitosa, encorajadora e incentivadora. Os antigos gregos falavam às crianças o estritamente necessário, segundo a tradição. E exigiam que fossem lacônicos à mesa. Ho­nestamente? Não vejo razões para elogiar esse legado. 

José Antônio dos Santos
Membro da ACLCL e mestre pela UFSJ
Contato: joseantonio281@hotmail.com

Escrito por Educação, no dia 31/08/2018